04/09/2026 - 'O Rio pode mais': Violência impõe custos e trava negócios na capital e na Baixada Fluminense
No fim da tarde, quando muitos caminhoneiros encerram a jornada e procuram um lugar para passar a noite, a decisão nem sempre é apenas pelo descanso. Nas estradas do Rio, motoristas dizem que parar antes de anoitecer é também uma forma de se proteger da violência.
O impacto do crime na circulação de cargas no Rio e na Baixada Fluminense é um dos exemplos de como a violência encarece e trava negócios na área. Os entraves para desenvolvimentos na Região Metropolitana foram temas do quinto capítulo da série "O Rio pode mais", do RJ2.
A um mês das eleições, a equipe do telejornal percorreu diferentes regiões do estado para identificar os principais entraves ao desenvolvimento e os potenciais de cada território. Em cinco capítulos, a série mostra como problemas de infraestrutura, mão de obra e outros gargalos afetam a economia local.
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“Antes de anoitecer tem que parar pra não ser assaltado, pra não acontecer uma coisa pior”, conta o caminhoneiro Anderson Coeres. César Pettres, que há 50 anos vive na estrada, também prefere interromper a viagem: “Eu prefiro ficar aqui, que aqui é garantido.”
Caminhões são alvos rotineiros dos bandidos
Reprodução/RJ2
A realidade não é nova. Há mais de 20 anos, o RJ2 já mostrava os efeitos dos roubos de carga no estado. Em 2003, foram registrados 4.073 casos. O número oscilou nas décadas seguintes e chegou ao recorde de 10.599 ocorrências em 2017. Desde então, houve redução, mas o índice continua elevado: foram 3.113 roubos de carga em 2025.
Para quem trabalha nas estradas, a sensação de insegurança permanece. César Pettres, que veio de Quitandinha, na Região Metropolitana de Curitiba, conta que chegou a se aposentar, mas voltou a dirigir depois de um ano e meio em casa.
“Eu acho o cúmulo. A gente vai morrer e não vai melhorar. Eu estou há 50 anos nisso aqui e nunca vi melhorar”, afirma. Segundo ele, a rotina nas estradas mudou. “Hoje é muita loucura, muito bandido, você tem que estar atento", se emociona.
Guerra contra o 'Chupa-cabra'
As transportadoras investiram em rastreadores, câmeras e sistemas capazes de bloquear remotamente caminhões. Mas as quadrilhas também passaram a usar novas estratégias.
Um dos equipamentos usados para impedir o rastreamento é o chamado jammer, um bloqueador portátil de sinais proibido no Brasil, apelidado de Chupa-cabra pelos bandidos. Quando o dispositivo entra em ação, o caminhão pode desaparecer da central de monitoramento. Sem comunicação, a empresa perde a capacidade de reagir rapidamente e pode ficar impossibilitada de bloquear portas ou desligar o motor.
A resposta agora também envolve tecnologia. Segundo Marcelo Pessoa, diretor de Segurança do Sindicarga, equipamentos capazes de identificar a presença do bloqueador podem ajudar as forças de segurança a localizar os veículos.
“A gente consegue detectar aquele caminhão que está usando aquele equipamento jammer. Com isso, as forças de segurança conseguem ir no veículo certo e combater o roubo de carga”, explica.
A proposta é equipar a Polícia Rodoviária Federal, a Polícia Civil e unidades estratégicas da Polícia Militar com a tecnologia.
Motoristas também são vítimas dentro das cidades
Flagrante de roubo de carga no Rio
Reprodução/RJ2
O risco não termina quando o caminhão deixa a estrada. Em áreas dominadas pelo tráfico, motoristas podem ser rendidos durante entregas e obrigados a pagar para circular.
Um caminhoneiro contou à reportagem que foi abordado durante uma entrega de um fogão nos arredores do Morro da Serrinha, em Madureira, na Zona Norte do Rio. Segundo ele, os criminosos exigiram uma taxa mensal e, como a transportadora não contribuía, cobraram R$ 3 mil para liberar o caminhão.
“Se não pagasse poderia acontecer algo pior”, relatou.
Em outra situação, uma funcionária da empresa precisou negociar diretamente com os criminosos para preservar a equipe e evitar que o caminhão fosse incendiado.
“Eu tinha que segurar eles, tinha que segurar pra eles não perderem a paciência”, contou. Segundo ela, a prioridade era preservar a vida dos funcionários. “Nós acabamos cedendo, digamos assim, cedendo para não ter um dano, talvez maior.”
Os efeitos psicológicos também ficam. “Ataca o nosso psicológico, do ajudante, quando a minha esposa soube ficou nervosa, tudo isso acontece”, disse o motorista.
Milícias criam novas barreiras para as entregas
Na Baixada Fluminense, empresas também enfrentam cobranças impostas por grupos criminosos. Uma empresária contou que, em algumas áreas de Seropédica, caminhões são obrigados a pagar para entrar e fazer entregas.
“Hoje em dia não é só o roubo de carga, em alguns locais você não pode entrar porque a milícia te cobra pedágio para entrar e entregar mercadoria”, afirmou.
Segundo ela, a cobrança pode chegar a cerca de R$ 1.600 por caminhão. Quando a empresa se recusa a pagar, precisa mudar a rota ou encontrar alternativas para entregar a mercadoria.
“Hoje nós estamos assim com Seropédica. Ou paga ou não entra”, relatou.
Em alguns casos, a empresa deixa de fazer a entrega no endereço do cliente. “A gente chega a ter o caso do cliente ir à nossa empresa buscar a mercadoria”, contou.
Para a empresária, a situação provoca sensação de impotência. “A gente se sente impotente, porque é uma coisa que a gente não tem como controlar. A única coisa que a gente pode fazer é mudar rotas.”
Violência aumenta o custo de toda a economia
Os impactos não ficam restritos às empresas que sofrem diretamente com os crimes. Para Isaque Ouverney, gerente de Infraestrutura da Firjan, a violência afeta toda a sociedade, inclusive quem nunca teve uma carga roubada.
“Mesmo aquele indivíduo que não sofreu a violência diretamente, ele é afetado indiretamente no aumento do seguro do seu carro, o aumento do custo do frete”, afirma.
O economista-chefe da Firjan, Jonathas Goulart, explica que o problema também atinge empresas do interior que precisam transportar a produção até a capital.
“Você tem a perda do roubo em si, mas também, para evitar esse roubo, você pode, por exemplo, contratar uma segurança privada para acompanhar essa carga. Então, naturalmente, aumenta o custo de produção”, explica.
Além do prejuízo direto, empresas precisam gastar mais com segurança, alterar rotas e lidar com atrasos. O resultado é uma economia menos eficiente e produtos mais caros.
A preocupação com a violência também pesa na decisão de investir no estado. Segundo Luiz Césio Caetano, presidente da Firjan, uma pesquisa realizada pela entidade mostra a dimensão do problema.
“Dois em cada três empresários consideram a nossa insegurança pública um obstáculo para investimentos”, afirma.
Para os empresários, o medo envolve não apenas o roubo de cargas, mas também a segurança dos funcionários e a atuação de milícias.
A violência, portanto, aparece como um problema que ultrapassa a segurança pública. Ela interfere na logística, encarece o transporte, reduz a produtividade e pode dificultar a chegada de novos investimentos.
Na avaliação da empresária ouvida pela reportagem, quando o poder público não consegue ocupar determinados territórios, grupos criminosos passam a impor suas próprias regras.
“Quando o poder público não toma conta, o bandido toma. E é isso que está acontecendo.”
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